A primeira coisa: me desculpem pelo titulo da matéria. Realmente esse é um cálculo do dinheiro que precisa uma pessoa, seja de onde for, para morar com um mínimo de dignidade na Espanha.








Usei a palavra ‘brasileiro’ porque no final este é um blog sobre o Brasil e tomei a decisão de escrever por causa do interesse cada vez maior que alguns tem por achar destinos para fugir da crise. Feita a aclaração… vambora!

Salários minimos na Europa em 12 pagamentos. Fonte: www.salariominimo.es

Salários minimos na Europa em 12 pagamentos. Fonte: www.salariominimo.es

 

Morar na Espanha e em outros países do sul da Europa, principalmente os do Mediterrâneo é mais barato do que morar em algumas cidades do Brasil. Por que isso? Primeiro porque os salários, sendo ridículos em comparação com as grandes potências da União Europeia, são mais altos do que os brasileiros.

Na Espanha por exemplo são 748,30 euros por mês porém muitas empresas por causa da crise se ajeitam para pagar menos que disso aos trabalhadores às vezes levando-os a uma situação de ilegalidade. Ser ‘autônomo’ (como microempresa no Brasil) custa por mês 260 euros (o trabalhador tem que pagar ao Estado). Por causa disso, às vezes a pessoa, que tem que pagar os seus estudos ou alimentar a família aceita trabalhar fora da lei perdendo o direito a Seguridade Social (serviço de saúde, desemprego, etc).

No Brasil o salário mínimo em 2015 é de 788 reais (uns 205 euros). Obviamente, dependendo do tipo de trabalho, a experiência e outros fatores, o trabalhador pode ganhar muito mais do que isso nos dois países. Mesmo assim, essa quantidade é boa para ter uma referência do nível de vida em cada lugar.

Por exemplo, na Espanha o salário médio bruto por jornada completa no ano 2013, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) foi de 2.121 euros (tem que subtrair  os impostos que dificilmente baixam dos 300 euros). Isso não quer dizer que todo mundo ganhe essa quantidade.

De fato, eu diria que não são muitas as pessoas que ganham essa quantidade hoje em dia. A grande maioria, mesmo com uma ou várias carreiras, mestrados, doutorados, idiomas e experiência não ganham mais que 1.200 ou 1.300 euros ao mês. Muitas vezes, nem isso… Faz poucos anos ser ‘mileurista’ (ganhar 1.000 euros) era considerado uma precariedade, agora há quem brigaria forte por alcançar essa cifra.




Quanto menos formação ou maior número de pessoas desempregadas em uma área, mais baixos são os salários, porém isso da para debater. Diferente do Brasil, na Espanha um faxineiro ou um pedreiro (com todo meu respeito para as pessoas que fazem esses trabalhos), pode ganhar bem mais do que alguém que se formou em duas especialidades diferentes.

Na época que chamávamos do ‘tijolo’, ou seja, os anos da bolha imobiliária, um pedreiro ganhava uns 5.000 euros por mês com total tranquilidade… Isso fez com que muitas pessoas se comprometessem com os bancos (hipotecas de casas, carros caros, férias no Caribe, etc…) Esse foi um dos motivos da crise atual que depois de oito anos ainda não conseguimos superar.

Preços em um bar no bairro de Tetuán em Madri.

Preços no bar La Jamboteca no bairro de Tetuán em Madri. Foto: Virtudes Sánchez

 

Outro dos motivos pelos quais morar na Espanha é mais barato são os preços, tanto dos alimentos quanto das roupas (no Brasil são caras DEMAIS!). Também o aluguel nas grandes cidades costuma ser mais barato. Acho que nas áreas rurais brasileiras ou mesmo no interior do país, conseguir uma casa barata é bem mais fácil do que nas capitais mas é precisamente nesses lugares onde tem mais oportunidades de emprego.

Há algum tempo fiz um cálculo de quanto dinheiro poderia precisar um estrangeiro para morar no Brasil e cheguei a conclusão de que para morar em um bairro dos considerados ‘seguros’ tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo (me desculpem, o país é imenso e tive que escolher as cidades) iriam precisar de pelo menos 750 euros ao mês só para o aluguel.

Usei como referencia uma casa de dois dormitórios. No bairro carioca do Leblon o preço era de 1.900 reais enquanto no Jardim Paulista o custo por uma casa similar era de 1.400. Alugar só um quarto em uma casa pode custar entre 350 e 450 euros por mês, mais ou menos ou mesmo que em Madri. Mas vamos ver tudo isso junto:

MADRI

– Chamberí (Ríos Rosas) Apartamento de dois dormitórios (55 metros quadrados: 750 euros.
– Salamanca (Goya) Apartamento de dois dormitorios (45 metros quadrados): 800 euros.
– Tetuán (Berruguete) Apartamento de dois dormitorios (90 metros quadrados): 750 euros.

BARCELONA

– Eixample. Apartamento de dois dormitorios (50 metros quadrados): 850 euros.
– Les Corts. Apartamento de dois dormitorios (54 metros quadrados): 695 euros.
– Gracia. Apartamento de dois dormitorios (70 metros quadrados): 700 euros.

MÁLAGA

– Centro. Apartamento de dois dormitorios (60 metros quadrados): 400 euros.
– Pedregalejo. Apartamento de dois dormitorios (85 metros quadrados): 600 euros.
– Huelin. Apartamento de dois dormitorios (85 metros quadrados): 450 euros.

Málaga. Foto: Luc Mercelis

Málaga. Foto: Luc Mercelis

Coloquei aqui Málaga porque acho que uma das cidades da Espanha onde melhor se pode viver sem gastar dinheiro demais (cidades do norte costumam ser mais caras). Também posso recomendar Toledo, Granada, Córdoba, Salamanca… Pessoalmente gosto mais do sul porque o clima é bom, as pessoas são abertas e simpáticas e os preços bem mais baixos.

Internet

Os preços na Espanha são maiores do que em outros paises da Europa mas cada vez tem mais serviços incluídos no pacote. Por exemplo, ligações de graça a outros telefones fixos e celulares. A empresa mais conhecida é Movistar (Telefónica) mas costuma ser a mais cara. Também tem Vodafone e Orange que completam o que poderíamos chamar de companhias tradicionais, famosas principalmente por seus serviços de telefonia. Jazztel é uma boa alternativa. Dependendo do serviço podem ser mais caras ou mais baratas mas por menos de 30 euros é praticamente impossível conseguir alguma coisa.

Telefonia móvil

Cada vez tem mais ofertas de internet + telefone celular. Um contrato com Orange (a que eu uso. Também não teria problema em trocar por Pepe Phone por exemplo que é mais barata mas só online) para smartphone, ou seja, chamadas e internet juntos (2.5 GB) custa 30,95 euros por mês. Tem infinidade de tarifas mas baixar de 25-30 euros é difícil.

Hospital Clínico de Madrid.

Hospital Clínico de Madrid.

Saúde

Espanha tem serviço de saúde gratuito. O atual governo limitou o uso aos imigrantes ilegais e decidiu que eles só poderiam ser atendidos nas urgências. Também estabeleceu umas tarifas para que mesmo sendo ilegal, quem pudesse pagá-las, fosse atendido do mesmo jeito que qualquer pessoa.

Felizmente (porque a maioria dos espanhóis não concordavam com essa medida) essa lei vai mudar e de novo o serviço será para todos os cidadãos mesmo sem residência legal no país. Tudo isso quer dizer que se você vir aqui seria ótimo ter um seguro de saúde mas também não é necessário.




Se você precisar ser atendido, vai ser mesmo. Por outro lado, os serviços de saúde espanhóis, mesmo tendo piorado por causa da crise, são bem melhores do que muitos outros na Europa.

Se você vier para trabalhar legalmente terá um cartão de saúde e um médico geral que lhe enviará a todos os especialistas que precisar (otorrino, dermatologista, etc). A grande maioria dos trabalhadores na Espanha usa esse serviço. Se ainda assim você quer contratar um plano de saúde privado, tem companhias como Asisa que cobram uns 66 euros por mês. Dependendo do perfil da pessoa e a cidade o preço pode mudar. Quanta mais idade e mais doenças, mais caros ficam os planos . Por ano os preços variam entre os 600 e os 800 euros.

Transporte público

Metro de Madri. Uma passagem: entre 1,5 e 2 euros. Bônus mensal para maiores de 23 anos, zona centro: 54,60 euros).
Ônibus urbano: 1,5 euros.
Metro e ônibus de Barcelona: 2 euros.

Gasolina

1 litro, aproximadamente 1,26 euros costuma variar.

Academia

Altafit Gym Club (o meu). O preço depende do tempo. Por exemplo, se você frecuentar três meses, vai pagar menos de 100 euros. Depois desse tempo, se você decidir continuar, o preço baixa um pouco para os 72 euros (3 meses).

Se prefere pagar mensalmente o custo é de 24 euros (a partir de setembro de 2015 vai aumentar para 29). Os preços das academias normais de bairro em Madri é mais alto do que isso. Normalmente, entre os 40 e os 55 euros. Já vi algumas por 30 mas poucas. Tem outras bem mais ‘fashion’ por 80, 90 e até 100 euros ao mês.

Cinema

Na Espanha ir ao cinema é caro, entre outras coisas porque pagamos um 21% de IVA (Impuesto sobre el Valor Añadido). Em Madri custa 7,50 euros (cines Callao). Em Barcelona, 10,42 (cines Diagonal). Ir no final de semana é mais caro. Em outras cidades mais pequenas pode custar uns 5 euros.

Comida (preços do supermercado Carrefour):

* Nesquik 400 gramas: 2,85 euros.
* Arroz SOS 1 kg: 1,52 euros.
* Garrafa de água Bezoya 1 litro: 0,53 euros.
* Cerveja em lata, Mahou 5 estrellas: 0,62 euros.
* Leite Pascual, 1 litro: 0,96 euros.
* Pão, barra grande: 0,69 euros.
* Merluza congelada, 500 gramos: 8 euros.
* Garrafa de vinho branco Bach (MUUUUITO BOOOM!!!!!!!): 3,60 euros.
* Peito de frango familiar, 1,200 kg: 6,60 euros.

'Menú del día' em Madrid. Foto: Melanie J Watts

‘Menú del día’ em Madrid. Foto: Melanie J Watts

 

Restaurantes

Na Espanha o mais normal é comer o menu do dia do restaurante que tem primeiro prato, segundo prato, bebida (pode ser uma garrafa de vinho e outra de ‘gaseosa’ para combinar) e sobremesa. Do lado da minha casa em Madri (bairro de Tetuán, 15 minutos caminhando do Santiago Bernabéu) tem um restaurante muito familiar, com excelentes preços. De segunda a sexta o menu custa 7,50 euros. Finais de semana, 8,25. As vezes penso que vale mais comer lá do que comprar a comida e fazer em casa.

Os bares, restaurantes, ‘mesones’ ou ‘tabernas’ na Espanha, quanto mais simples, melhor qualidade-preço tem. Mas tem de tudo, obviamente. Uma salada em um restaurante de nível mais alto pode costar entre 8 e 10 euros. De uma cidade para outra pode ter diferenças bem grandes.

Em Madri, por exemplo, em Ramses um dos que está mais na moda), você dificilmente vai comer por menos de 36 euros. No site Eltenedor pode consultar os preços de todos os restaurantes.




Roupa

A maioria das pessoas compram em alguma loja de Inditex (Zara, Stradivarius, Massimo Dutti, Bershka, Pull&Bear) ou então na Mango e H&M. Sobre sapatos também tem muita variedade. Alguns exemplos:

* Levi’s Slim Fit (homem): 79,95 euros em Zalando.
* Tenis Nike Internationalist (mulher): 90 euros.
* Vestido Zara: 25,95 euros.
* Camisa Massimo Dutti (homem): 39,95 euros.

A roupa é muito mais barata na Espanha do que no Brasil. Tem até shoppings outlet de alto nível como Las Rozas Village onde pode achar roupa de marca com descontos de até 50%.

Por falar uma quantidade NÃO EXATA, eu calculo que em muitos lugares da Espanha (nas grandes cidades irá precisar mais) pode se viver com 800 euros por mês (para uma pessoa, não uma família). Se você é jovem e pode se permitir dividir aluguel com outras pessoas, usa o transporte público, faz sua comida e leva a marmita para o trabalho, vai tomar umas ‘cañas y tapas’ todas as semanas (isso é costume nacional), compra algumas roupas de vez em quando… etc, etc…

Se vai viver em lugares mais afastados, rurais, no interior, com certeza que pode viver com menos até. Com isso não estou querendo dizer que possa levar uma vida de luxo, mas pelo menos da para chegar ao final do mês.




Esses cálculos foram feitos para pessoas que querem começar uma vida nova do zero e tem a capacidade de economizar. Se você quiser morar sozinho/a em um apartamento, no mínimo vai pagar 400 ou 500 euros ao mês fora as despesas de Internet, eletricidade, agua, etc.

Se além disso você quer ou precisar de um carro, vai ter que alugar uma garagem. Se não quer limpar a sua casa, então vai precisar de alguém para fazer as tarefas. Isso vai te custar pelo menos 10 euros por hora. Se não pode se ajeitar com bolsas da Zara e quer só de Michael Kors, essa matéria não é para você. Aquí estou falando do mais básico, não do que é melhor 😉

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